terça-feira, 28 de junho de 2011

1945


“Quem são aqueles?

Não sabem o que há debaixo da neve?

Aqueles que agora jazem sepultados eram homens...

Mas será que eram mesmo?

Talvez não tenham dado nem mesmo um grito.

Aqueles que estão correndo por cima dos cadáveres...

São eles os humanos?”



Como nem só de quadrinhos ocidentais vivemos nós, trago-lhes a dica de um mangá de Keiko Ichiguchi. Uma autora natural do Japão mas que reside atualmente na Itália, onde além de trabalhar como mangaká, também faz traduções de outros títulos como Berserk e Vagabond.

1945 é ambientado na Alemanha dos anos 30 em meio a Segunda Guerra Mundial e conta a história de três jovens e seu amor e comprometimento com seu país. Seja em defesa ao nazismo ou contra ele. Não se trata de mais uma luta entre vilões e heróis, cada personagem tem seus ideais e suas legítimas motivações.

Tudo começa com o encontro de Elen e Alex pouco antes das tragédias da guerra. Ali nasce um amor entre os dois. O que será um importante fator para toda a mensagem transmitida em 1945. Os anos passam e ao mesmo tempo em que Elen e seu irmão Maximillian se esforçam para se manterem afastados das organizações nazistas, Alex se filia a SS (Schutzstaffel, em português "Tropa de Proteção"). O mangá tem como principal base o conflito entre a Resistência e os militares e seu ódio pelos judeus, ambos dispostos a irem até as últimas conseqüências por aquilo em que acreditam. E em meio a esse caos Alex e Elen tentam encontrar sua versão da verdade lutando por um mundo melhor, lutando pelo amor.


Keiko Ichiguchi não poupa o leitor dos horrores da frente de batalha e dos campos de concentração. Possui um traço realista e detalhista, exaltando características comuns ao Shoujo mangá além de, com muito romantismo e drama mergulhar fundo na “alma” de cada personagem.



1945 foi publicado no Brasil pela editora New Pop em 2007.

Retalhos: biografia e love-story


Retalhos, de Craig Thompson, é uma biografia do autor, que conta a história de parte de sua juventude e sua relação com a família, com a religião e seu primeiro amor. Longe de ser água-com-açúcar, apesar de comovente e envolvente, a graphic novel ganhou vários prêmios ao redor do mundo. Arte em preto -e - branco, detalhada. Ideal para quem nunca leu quadrinhos, Retalhos é um exemplo da força desse tipo de narrativa.
Surpreendentemente literária. Esta seria uma tentativa de definir a obra, mas ainda assim, inexata. Thompson conta sua vida em uma cidade do interior norte-americano, muito marcada pelo cristianismo, e o contraste entre sua educação rígida e o mundo "real", que muitas vezes o fazia questionar seus valores. O autor relata a sua convivência conturbada com o irmão caçula, sua tentativa de se encaixar em um mundo mais descolado e menos rígido na adolescência e sua primeira namorada, Raina, que foi um marco em sua vida.
Em uma cena narrada, Raina o presenteia com uma colcha de retalhos, com pedaços de tecido que haviam marcado sua vida. Daí o "Retalhos" do título, uma metáfora perfeita para a narrativa fragmentada da história.
Cativante, poderosa e visualmente impressionante, Retalhos é altamente recomendada.

Violent Cases: título em inglês, obra já em português


Violent Cases é uma das primeiras graphic novels do mestre Neil Gaiman, autor da cultuada série Sandman, e seu "fiel escudeiro" Dave McKean. Não tão conhecida, foi publicada no Brasil em 2009 e apresenta um desses desafios típicos de tradução logo de cara: o título. No contexto, Violent Cases não pode ser Casos Violentos, pois "case", em inglês, também pode significar algo semelhante a uma caixa. É um tipo de jogo de palavras, intraduzível.
A trama é inusitada, para dizer o mínimo. Violent Cases conta o caso de um homem que, relembrando parte de sua infância, lembra-se quando seu pai desclocou seu braço e foi a um osteopata. Tal osteopata diz ter tatado Al Capone. A Inglaterra dos anos 60 e Chicago dos 1920 se fundem, a história é contada por fragmentos de memória.
Curta, bela e um tanto cruel, Violent Cases aborda a violência pelo olhar igênuo infantil, fragmentado, e depois analisada pelo narrador já adulto. Um pouco nebuloso em algumas partes, propositalmente. Narrativa bem construída, é uma graphic novel para qualquer um que aprecie boas histórias.
A arte de McKean, já em seu início, se prova mais que eficiente. Visualmente, enquadramentos ousados e colgens encaixam-se perfeitamente com o roteiro. Uma bela obra!

Persépolis: graphic novel autobiográfica

Graphic novels são mesmo muito versáteis! Até autobiografias podem ser contadas nesse formato. E há uma obra fascinante nessa categoria: Persépolis, de Marjane Satrapi. Essa é a primeira graphic novel iraniana já pubicada. Em 2008, foi adaptada para animação longa-metragem.
Persépolis acaba sendo muito mais que a autobiografia da autora, é também um relato histórico da revolução islâmica do Irã, um período pouco conhecido pelos ocidentais - pela visão de uma criança da época - Marjane. O modo como a autora conta essa história é instigante e comovente. Esse tema é bem abordado na primeira metade da obra.
Nessa revolução, o Xá, governante, abandona o país e é instaurada uma República Populista Teocrática Islâmica. Na vida de Marjane, então aos dez anos de idade, mudanças como estudar em salas separadas dos meninos e usar obrigatoriamente um véu na cabeça são obedecidas, mas incompreendidas. Dessas, muitas outras mudanças viriam. Algumas não são tão simples, e causam angústia e problemas para sua família, vizinhos e amigos. O que se vê é que os pais de Marjane, politizados e esclarecidos, estão bem mais preparados para lidar com a revolução que a população em geral.
Uma parte especialmente cativante é a que a autora reserva para seu tio Anuch, figura revolucionária e muito querida por ela. A história dele é contada de uma forma que mescla perfeitamente um clima familiar e íntimo com o relato histórico, revelador e, por vezes, chocante. Um bom exemplo do clima que Persépolis mantém durante boa parte da narrativa.
A segunda metade de Persépolis é mais voltada para a mudança de Marjane, que vai para a Áustria, e seu amadurecimento pessoal. Não é tão movimentada e variada quanto a primeira parte, que, além de uma autobiografia, conta parte da "biografia" de seu país de origem, mas não deixa de ser um tanto interessante. Há vários momentos curiosos e observações francas e irônicas da autora. Persépolis é definitivamente uma obra que vale a pena conhecer.